A intensificação do uso de ambientes digitais por crianças e adolescentes ampliou os desafios relacionados à proteção informacional desse público, em um contexto marcado por múltiplos riscos, como exposição a conteúdos inapropriados, disseminação de desinformação, exploração de dados pessoais, influência algorítmica e assimetrias de poder entre usuários, plataformas e instituições. Esses riscos impactam de forma particular sujeitos em desenvolvimento cognitivo, crítico e informacional, demandando respostas normativas capazes de articular proteção, garantia de direitos e responsabilização no ecossistema digital contemporâneo.
Os debates públicos e legislativos recentes culminaram na promulgação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Brasil, 2025), concebido como instrumento de proteção infantojuvenil em ambientes digitais. Contudo, observa-se que tais discussões têm privilegiado abordagens jurídicas, tecnológicas, comunicacionais e da saúde, atribuindo menor centralidade aos aspectos informacionais, éticos e epistemológicos que estruturam a produção, circulação e controle da informação na Internet.
Neste contexto, esta pesquisa propõe articular o conceito de regime de informação com aportes da Teoria Crítica, visando analisar a proteção informacional de menores em contextos digitais, a partir do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. Trata-se de estudo qualitativo, teórico e exploratório, fundamentado em revisão bibliográfica e avaliação conceitual de autores da Ciência da Informação e da Teoria Crítica, adotando uma perspectiva dialética para interpretar o regime informacional vigente.
O conceito de regime de informação e suas características contemporâneas são particularmente relevantes para entender os ambientes digitais nos quais crianças e adolescentes estão inseridos. A partir das perspectivas de Frohmann (1995), Gonzaléz de Goméz (1999, 2002, 2012) e Bezerra (2023, 2024), reconhece-se que os riscos informacionais não decorrem apenas de falhas individuais ou regulatórias, mas emergem de um regime dominante, estruturado por lógicas econômicas, tecnológicas e políticas, em que a informação é historicamente moldada por relações de poder, disputas de interesses e assimetrias estruturais.
Segundo Bezerra (2024), o regime de informação contemporâneo constitui-se como expressão do capitalismo digital, no qual as grandes plataformas tecnológicas convertem dados e experiências dos usuários em insumos para a produção de mercadorias digitais, reproduzindo dinâmicas de expropriação informacional e aprofundando desigualdades de poder. A lógica da alienação, descrita por Marx (2010), manifesta-se na apropriação indevida desses dados pelas big techs, fenômeno intensificado no contexto do capitalismo de vigilância (Zuboff, 2019).
O diálogo com o princípio esperança, formulado por Bloch (2005), sugere que ações coletivas, críticas e conscientes podem orientar políticas e práticas voltadas não apenas à segurança, mas à equidade, à emancipação e à autonomia nos ambientes digitais. Aplicado ao regime de informação, esse princípio indica que a proteção de menores deve ultrapassar a mitigação de riscos e o cumprimento legal, promovendo pensamento crítico, tomada de decisão consciente e participação ativa no ecossistema digital.
Assim, espera-se que o referencial teórico adotado permita compreender o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente como parte de um ecossistema informacional complexo e contraditório, oferecendo subsídios para a construção de ambientes digitais mais justos e inclusivos para o público infantojuvenil.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)